Educação com uma visão sistêmica e holística em Barra Grande

Grupo de Reflexão sobre Educação conduz um trabalho pioneiro na comunidade

O contato da educadora Diana Cianelli com a Permacultura veio como uma das filosofias que traz fundamentação e apoia a visão dela para a educação hoje, já que trabalha com três princípios básicos: o cuidado com as pessoas, o cuidado com a natureza e a repartição justa. Ela concebe a educação exatamente dessa forma: com uma visão sistêmica da vida e da interdependência de todos e de tudo. “Somos parte da natureza e não podemos nos ver fora dela”, esclarece.

Diana trabalhou por 8 anos em uma escola de São Paulo, mas já vinha  questionando-se sobre o sistema vivido em uma cidade grande e que, segundo ela, compromete as conexões, as relações com as pessoas e termina contribuindo para não se viver em plenitude, sobretudo por conta das distrações e demandas do dia a dia.

Por isso mesmo, ela preparou-se ao longo de alguns anos para, em março de 2015, largar tudo e iniciar uma viagem sozinha, partindo de São Paulo, em busca de ampliar o seu repertório de conhecimento relacionado à educação e ao autoconhecimento.

Passou alguns meses fora do Brasil, visitando vários países da Ásia e Europa e ficando de dois a três meses em cada um deles. Conheceu projetos, práticas e iniciativas alternativas de educação: algumas novas, outras nem tanto… Todas elas traziam algo em comum: resgatavam essa conexão que Diana tanto procurava.

Cidade Escola Ayni

Retornou em fevereiro de 2016 e voltou a viajar, desta vez pelo Brasil. Primeiro, ficou dois meses no Rio Grande do Sul, na Cidade Escola Ayni, que tem uma proposta baseada na visão sistêmica e holística da vida. Lá, a educadora fez dois cursos de Permacultura. Também atuou como voluntária na construção da escola, por uma semana, e teve um contato mais intenso com essas práticas. Foi uma experiência transformadora, uma oportunidade de reconexão e reengenharia de vida.

Nesse período, também passou um mês em uma comunidade, a Ecovila Karagutá, também no Rio Grande do Sul, que tem como objetivo maior essa vivência coletiva, o compartilhar do dia a dia, o cultivo da terra, os cuidados com a casa e com a comunidade, a meditação e o autoconhecimento através da relação com o outro e o que ele mobiliza em você.

rodas-de-conversa-15Em   seguida, foi para São Paulo, já prevendo uma ida a Barra Grande atendendo ao convite do engenheiro de materiais e bioconstrutor Hélio Athayde, que iria trabalhar na construção e ministrar um curso de BioConstrução para a obra do Raizes Eco Hostel, do casal Tatiana Johnsen e Denny Ottani (veja matéria aqui). Athayde entrou com a parte técnica e Diana Cianelli era responsável pela parte reflexiva do processo, fazendo vivências com os participantes e despertando neles a importância do resgate da cultura e dos saberes ancestrais. Tudo isso para que eles pudessem enxergar o quanto esse processo empodera as pessoas com autonomia, bem como o impacto que isso pode ter na construção de um novo paradigma de vida.

diana-cianelli BGNEla esclarece que “Normalmente, quem está procurando cursos nessa área são pessoas que já vêm questionando sobre a forma como a gente vive, como se constrói, relaciona-se e consome um pouco de tudo no dia a dia”. Muitos, chegam apenas para aprender a técnica, pela alternativa que passam a dispor para construir, cultivar e viver. Outros, estão em busca de uma reconexão com sua essência natural, com uma vida mais harmoniosa e conectada com saberes mais tradicionais. Ao final, seja de uma forma ou de outra, essa conexão acaba acontecendo. É uma consequência inevitável e fundamental!”, diz.

O curso em Barra Grande duraria um final de semana e a ideia inicial era que ela ficaria por uns 15 dias, antes de continuar a sua viagem para outros estados do Norte e Nordeste, inclusive o Amazonas, onde queria fazer um resgate de parte de sua história junto as tribos indígenas (algo que ela ainda pretende fazer). Mas, antes mesmo de chegar, conversando com Tatiana Johnsen, ela viu a possibilidade de, em terras piauienses, desenvolver um trabalho com as escolas e com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) local.

Já  com os pés no nosso litoral, a educadora marcou a primeira Roda de Conversa com o tema “Educação, Natureza e Comunidade”, aberta a quem tivesse interesse de participar. “A ideia era discutir um pouquinho sobre o que é educação, o que é natureza, o que é comunidade e como eles ‘conversam’ dentro da realidade local”, diz.

Foram apenas dois dias de divulgação e, para surpresa dela, compareceram 25 pessoas – um grupo bastante diversificado, formado por professores e diretores de escolas, funcionários do CRAS, funcionários das pousadas, da comunidade e de fora, dentre outros: pessoas com diferentes opiniões e visões. “Foi bem dentro do objetivo que nós tínhamos, que era a integração verdadeira da comunidade e não só da convivência, do compartilhar do espaço. Queríamos que as pessoas se olhassem, se escutassem, se conhecessem melhor”, informa.

No  encontro, a partir dessa proposta inicial, surgiu uma discussão acalorada e positiva, sobre o que acontece em Barra Grande e na importância de continuar esse trabalho, fazendo algo maior, a longo prazo. “O mais bacana é que a conclusão que se chegou, em consenso, é que todos têm a mesma percepção: a de que é necessário, sim, falar sobre educação, uma vez que a gestão pública tem as suas limitações”, diz Diana. E explica que não estão falando em educação formal, mas algo maior, que extrapola as paredes da escola e está presente em todas as relações: algo que se abre à possibilidade de transformação local.

Cianelli esclarece que, através do diálogo e da própria experiência como grupo, ampliou-se a compreensão da interdependência existente e o papel que cada um tem: “Nesse caso, todos são responsáveis pela educação das crianças que vivem nessa comunidade. Querendo ou não, se eu vivo aqui, por onde eu passo eu deixo uma marca e essa marca tem um impacto na vida de todo mundo”.

rodas-de-conversa-4Já  foram realizados cinco encontros. A ideia é avançar e continuar integrando pessoas de diferentes grupos locais e que são “educadores”, mesmo que não se percebam como tal. “Como esse é um processo individual, além das discussões sobre temas relacionados à educação, em todos os encontros tem sempre a proposta de uma vivência, uma meditação, uma dinâmica que traga um pouco de reflexão através da prática, do corpo, da alma e que possibilite essa reconexão de se perceber como iguais nessa humanidade que temos em comum”, esclarece. Assim, houve avanço no reconhecimento, na empatia, na visualização dos potenciais, das dores, das fragilidades e dos desafios, nos reflexos, na escuta ativa e na organização em rede.

Diana Cianelli explica, ainda, que “o objetivo maior do projeto é, sobretudo, o de criar uma rede de aprendizagem colaborativa e, para mim, a característica mais importante é que isso tudo venha em cima de um paradigma da abundância, a partir do que a comunidade tem de potência, de iniciativas e ações de educação que acontecem hoje na Barra Grande e que já são espaços educadores, como as escolas, o CRAS, o projeto VIVO e o grupo de capoeira”.

A ideia é que o grupo questione-se sobre como pode se reconhecer, potencializar e fortalecer o que já existe, ao invés de trazer algo de fora. É aí, por exemplo, que também entra a BioConstrução: uma prática que é presente na tradição da região e que vem sendo resgatada com a construção do hostel de Tatiana Johnsen e Denny Ottani. Muitos da comunidade local que participaram da obra e fizeram todo o treinamento, podem ser multiplicadores das técnicas dessa cultura ancestral, que passou a ser valorizada.

Diana alerta que existe um processo que vem acontecendo em muitos lugares do mundo, nos lugares pequenos, “que é a cultura local ir se perdendo, se desestruturando, a partir do momento que as pessoas vão chegando. É uma questão gerada pelo turismo, que tem um impacto muito positivo quanto à economia, mas que precisa acontecer de uma forma cuidadosa”, diz.

Por isso mesmo, o projeto prevê que seja feito um mapeamento afetivo da comunidade junto com as crianças do Ensino Fundamental II. A ideia é responder perguntas como: Que comunidade é essa? Quem são as pessoas que estão aqui? Quais são as histórias que constituíram Barra Grande? Que cultura é essa? Quais são as brincadeiras praticadas? Que lugares são especiais e que têm memórias e afetos envolvidos? Bem como novos questionamentos que partam da própria comunidade.

Através do CRAS, Diana também realizará um encontro por mês com os idosos de Barra Grande, onde será possível fazer um resgate da cultura local através da oralidade, das histórias que eles têm para contar. E não serão esquecidos o artesanato e os ofícios mais ancestrais.

Ela diz, ainda, que a ideia é também começar a trazer para Barra Grande pessoas de área relacionadas com habilidades e conhecimentos, que queiram contribuir de forma mais prática para o projeto e o grupo.

Ressalta-se que tudo está sendo feito de acordo com o tempo e o ritmo dos voluntários, das pessoas que participam do projeto. Tem muita coisa acontecendo e por acontecer que, na verdade, são ramificações dos encontros. Porém, segundo Cianelli, “Mais importante do que fazer coisas – que também são importantes – é fortalecer-se como uma rede de aprendizagem colaborativa, conectada, viva, em movimento e que está sendo constituída”.

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Nesse projeto, cada um participa como pode e da forma que quer colaborar. Também não há um plano fechado de como tudo vai acontecer: há uma visão e um objetivo em comum. A “marca” é de todos e está sendo construída por todos.

A educadora informa que, na verdade, não existe um plano “formalizado no papel”. Como tudo no grupo, são eles que vão decidir se querem fazer isso ou não. E se surgir esse momento, a própria rede o fará. Ela diz, por exemplo, que se houver a necessidade de recursos financeiros para realizar algo, isso será encarado como uma oportunidade de organização como comunidade para arrecadar esse valor. “Também queremos olhar para o dinheiro dentro de um novo paradigma, como, por exemplo, o financiamento coletivo… São coisas que virão com o tempo, de acordo com as demandas e as necessidades que a gente vai encontrando no caminho”, afirma.

Ela adverte que o grupo não pode esquecer o quanto estão conectados: “Enquanto a gente não estiver vivendo isso no corpo e no coração, percebendo que o que é bom para a comunidade, é bom para mim; e o que não é bom para a comunidade, não é bom para mim, nada do que a gente fizer vai ter sentido. Quando falamos de comunidade, expressamos o quanto estamos juntos e o quanto sabemos viver como um corpo só, mesmo cada um estando em sua casa e sem precisar compartilhar tudo. Isso exige quebra de paradigmas e de sair da zona de conforto, o que leva tempo e é um processo diferente para cada pessoa”, afirma.

Diana Cianelli lembra que o espaço dos encontros é aberto e faz o convite para que todos da comunidade participem a fim de fazer de Barra Grande uma comunidade educadora, onde as pessoas cuidam dos jovens, das crianças e da natureza, conhecem sua cultura e história e vivem de forma cooperativa e em paz.

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Por: Suzane Jales
Fotos: Arquivo/Diana Cianelli

6 comentários em “Educação com uma visão sistêmica e holística em Barra Grande

  • 02/11/2016 em 02:32
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    Suzane, que surpresa boa ver o que está acontecendo aqui tão perto! Gostaria de conhecer mais de perto esse projeto. Os encontros continuam acontecendo?

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    • 03/11/2016 em 16:25
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      Oi, Vanda! O trabalho é mesmo incrível e os encontros continuam acontecendo. Entra em contato com a Diana Cianelli, que é a responsável. Ela está no Facebook. Beijos!

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  • 26/09/2016 em 12:32
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    Adoraria participar de momentos como este. Q pena q a limitacao imposta pelas atividades cotidianas me impedem.
    Parabens pelo trabalho!

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    • 26/09/2016 em 13:44
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      Tudo tem seu tempo, Leina… Quando o seu chegar, mergulhe por inteiro. Beijos!

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  • 22/09/2016 em 22:11
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    Parabéns pela entrevista Suzanne muito esclarecedora e sucinta já que o tema é tão embasado em teorias e tentativas.. esperamos juntos fazer uma diferença no lugar que escolhemos como lar. Diana parabéns!!

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    • 22/09/2016 em 22:52
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      Eu amei fazer essa matéria, Fernanda! O trabalho que a Diana coordena e vem sendo abraçado pela comunidade, com certeza será um marco em Barra Grande.

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